Uns e outros estão aí
A espreitar por detrás das portas.
Uns e outros estão aí
A torcer narizes,
E a espalhar venenos,
E a apontar os dedos,
E a falar baixinho da vida alheia,
E a se contorcer de inveja.
Seres paridos,
Trazidos e criados
Por mim.
Dentro de casa.
Dentro do peito.
Abraçam-me com braços de covardia,
Amarelados da não-vida,
Desejantes
Da vida vivida pela vida alheia,
Das conquistas conquistadas
Pela vida alheia.
Uns e outros estão aí,
Mascarados de seda vermelha
E olhos de candura.
Pobres diabos!
Lobos com peles de cordeiro,
Sepulcros caiados,
Podridão!
Uns e outros...
Estão aí a espreitar,
A engendrar perdição.
Mas eu,
Eu quero espalhar-me de não ver,
Evadir-me de não ouvir
Essa soma de contradições contraditas
E arquitetadas.
Quero espalhar-me e soprar-me
Para mais exibir
Meus pedaços plenos de vida.
E sem ressentimento de
Uns e outros
Sonhar encontros
Com uns e outros
Que não espreitem
Da vida
Senão a própria...






