terça-feira, 4 de janeiro de 2011

OS SONS DE MIM

         
            O som lá fora é o da chuva. Hipnotizante e reflexivo. Podia ficar horas ouvindo essa sinfonia mágica e lavando, literalmente, a alma.
            É o saudoso e fascinante som da minha infância pobre, de telhado com melodia de sonhos, tão caro que a minha memória só pode entender e relembrar com tanta nitidez quando que ela cai suntuosa.
            O som lá de fora de mim é assim...
            E aqui dentro de mim também é sinfonia. Os sons ecoam e se misturam com o meu pulsar costumeiro, fervilhante de urgência e plenitude.
            Aqui dentro, ouço os sons da memória, das lembranças que não se encaixam, por mais que eu tente, na condição real da vontade do “dia-após-dia”.
            Aqui dentro, o trovão que o coração dispara é o de querer sempre, que , diga-se de passagem, é inquietante e indecifrável para os que são  cúmplices mesquinhos do comodismo.
É o trovão que o coração dispara quando se mistura com o som das lembranças e dos desejos, som  que eriça a minha pele, centímetro por centímetro, na ânsia de possuir o segredo de tudo, vontade insana e irreal para todos os tempos de mim e de você.
            Aqui dentro até as minhas entranhas todas gritam... Eu as ouço...Mas você não. Não ouves... Não vens... E eu quero, e eu procuro e temo querer além, muito além do poder e do ter. Espero... Espero...
            Aqui dentro agora, também nos meus ouvidos, os teus sons todos: palavras, sussurros, pedidos, promessas, súplicas, delírios de  justa medida até quando descansamos juntos.
            E ali, quando no teu peito, o meu coração ouve o teu, tão nitidamente, tão claro, pulsando além do corpo e além da alma. O trovão que atormenta docemente e ilumina o céu da minha madrugada.
            Não preciso que amanheça para ouvi-lo... No escuro mesmo, estridentemente seu ritmo me conduz... Obscuramente me conduz...
            Sigo o som... Forte e rítmico... Enquanto pulsar e fascinar, meus ouvidos estarão atentos para dançar a música que embala as minhas constantes descobertas de bem-quereres .

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

SENTIMENTO

   
   Era observadora...Conversava pouco. Sorria sempre, com ou sem motivos. Uma música, um gesto, a natureza. Coisas simples.
      Acreditava na vida.  E por isso vivia apenas.
      Se preocupava com as questões da sensibilidade humana. Chorava com os noticiários da televisão, embora o coração nunca deixasse de acreditar.
      Naquela semana uma situação em especial lhe chamou à atenção. Não enxergava bem, mas podia ouvir uma agulha caindo... Audição invejável! E não prestava atenção na conversa alheia por falta de educação, mas por ser inevitável.
      Parou. Prestou atenção no que ele, com ar de segurança e prepotência, falava para a moça. Ela, por sua vez, esboçava um certo ar de estranhamento, como se não fosse o que esperava escutar depois de tudo, mas prestava atenção em cada palavra.
      De repente ouviu:
      "__ Só precisamos tomar cuidado para não virar SENTIMENTO."
       Como assim cara pálida? Não sabia o que envolvia aqueles dois, mas podia levantar hipóteses, era inteligente também , muito.
       Será que aquela pessoa sabia o significado dessa palavra? Aquilo seria realmente uma pessoa ou seria uma barata?
       SENTIMENTO vem do latim, SENTIMENTUM, “opinião, sentimento, sentidos, afeição”, de SENTIRE, “sentir”.
       Será que existe alguma situação com a qual nos envolvemos que não nos desperte SENTIMENTOS? Nem que seja ódio?
       Quando um homem procura uma prostituta, para a satisfação breve e sem compromisso das suas necessidades, ele sente por ela um dos sentimentos mais fortes e instigantes que o ser humano pode experimentar: o DESEJO. Mas ele sente. Ele sente tanto que o sentimento o domina.
       Será que muitos não entendem ou não percebem isso?
       Ela se entristeceu. Não haveria uma maneira de reservar o melhor de nós para o outro e guardar o pior para nós mesmos?
       Aquela insensibilidade era o pior daquele homem. A moça parecia entender. Não havia sentimentos então? Ou eles eram tão sórdidos que não tinha coragem de expressá-los? Ou eram tão fortes que não podia assumi-los?
      A moça se levantou. Foi embora. Não lamentou, afinal, as pessoas não nascem com estrela na testa. Não dá pra saber da alma, senão da nossa. Engano. Superaria... Parecia forte.
      Ela ficou ali. E na tentativa de não fazer tudo sempre igual, não chorou. E resolver tatuar a palavra SENTIMENTO no seu pulso direito. Escreveria sempre sobre ela. E faria renascer todos os dias, pelo menos para ela, o encantamento doce de SENTIR sempre...Sentir tudo e com muita força...SEMPREEEEEEEEEE...
      
      

domingo, 2 de janeiro de 2011

CULTURA...

Agora eu tenho uma excelente justificativa para comprar vestidos quando der vontade. Porque o desejo de cultura, eu não sinto a menor necessidade de justificar! kkkkkkkk

MINHA ILHA

Há um tempo eu já tinha lido algo sobre esse texto de Drummond e guardei, depois ele foi um presente cômico...Veio parar nas minhas mãos quase que por acaso (Como se eu acreditasse em acaso!) e me surpreendeu enormemente, tamanha a identificação que tive com ele. Não está transcrito na íntegra, mas a primeira parte já é fascinante...
"Quando me acontecer alguma pecúnia,  passante de urn milhão de cruzeiros,  compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante)   ficará no  justo ponto de  latitude e  longitude que,  pondo-me a coberto de ventos, sereias   e   pestes,   nem me   afaste   demasiado   dos   homens   nem me   obrigue   a   praticá-los diuturnamente. Porque esta e a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.
De há muito sonho esta ilha, se e que não a sonhei sempre."

     Somos capazes de dar sentido ao mundo , criar significado, e para isso precisamos colocar em atividade uma função da mente muito interessante e importante __ a IMAGINAÇÃO.
    Simbolizar faz parte da própria condição humana. A ilha, muito mais que uma fantasia delirante, é uma imagem simbólica universal de privacidade, prazer, descanso e aconchego...
    É quase uma ficção, sem deixar de se constituir realidade.(HUMMM, ficção-real...Interessante!)
    Bom, para esta ilha, a minha ilha, definitivamente eu não levaria nenhum relógio... Ai as horas! Às vezes elas me irritam...E eu teria o tempo todo para pensar... Voltar ao início de tudo... Abandonar a inércia... Refletir...
    Ah, algum amigo que saiba tocar e cantar ou contar histórias está naturamente convidado. E que tenha o coração igualmente aberto para os desafios de estar só, onde somos desmascarados pela solitude...
    Eu gostaria que as músicas e as histórias me fizessem lembrar coisas boas, ou que fossem mesmo uma espécie de provocação ou qualquer vaga menção a qualquer vago evento interessante que tenha marcado a memória e que, por obscuro mecanismo, despertasse fundas, gratas e nobres emoções retrospectivas.      
   Bem-vinda seria também toda a provocação que me avivasse a sensibilidade, compensando em variedade e profundidade toda mediocridade da vida social.
    Não é uma ideia de fuga, é uma oportunidade de voltar  ao início de tudo. Rever conceitos e valores. Reconstruir.
    Temos motivos para ir às "ilhas"...
     A ilha pode ser meditação despojada, renúncia ao desejo de influir e atrair. Há um certo gosto em pensar sozinho. É ato individual como nascer e morrer... É muitas vezes solidão desejada.
     A ilha é, finalmente, o refúgio último da liberdade, sufocada diariamente por motivos diversos.
     Eu fico aqui, sonhando com a minha ilha, aquela que quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de dólares (porque os tempos são outros!), eu hei de comprar...
     E ali, eu serei feliz ao som bem alto das música e histórias provocantes dos meus amigos de coração aberto que não têm medo de encarar, vez ou outra, a solidão... Eu e meu cérebro over pensante ( e isso não é vantagem nenhuma às vezes), no meu mundinho particular e nostálgico de sonhos, divagações e devaneios...
    Podem me visitar de vez em quando...Só pra eu não ficar maluca de vez!!!kkkkkkkkkkkkkkkk

PALAVRAS

"Uso as palavras para compor os meus silêncios..."
                                         Manuel de Barros

sábado, 1 de janeiro de 2011

RECEITA DE NÃO CHORAR DE AMOR POR CARLA STOPA

Receitinha pra começar o ano...
Meninas, funciona...Experimentem com um bom vinho...
É infalível...kkkkkkkkkk
Depois me contem...
Cada cabeça, uma sentença...

RECEITA DE NÃO CHORAR DE AMOR POR CARLA STOPA


Pegue um desses meus poemas tortos
Feitos a esmo mesmo, sem eira nem beira,
E leve-os até essas mulheres que choram demais
Ao sabor de fel da dor de amar.
De preferência
Com um sonho de valsa para adoçar.
Procura.
Têm milhares por aí.
Antes, conta tudo.
Pode contar que não tenho mais dezoito,
E que também já chorei de amor e que me cansei de lamentar.
Diz também, que na verdade, ainda sou meio ignorante,
Mas que neles, não tem nada de mais,
Só falo mesmo de mim, daquilo que já senti e me fez chorar.
Diz a elas:
“Juízo, moça,
Não vá se matar.”
Pois a felicidade vem,
Se não aqui, em algum outro lugar.
Os poemas que levares vão dizendo o que fazer,
Que pra não chorar de amor
Basta sentar um pouco de frente para o mar,
Mas se no lugar não tem, serve mesmo o luar.
Também outra receita infalível
Tiro e queda para disfarçar:
Coloque na boca um carmim
E um sorriso no olhar,
Mesmo com a alma soluçando de tanto chorar...
Ouve bem alto sua música predileta
E dança sozinha sob as estrelas
Mesmo se o céu for o teto de um quartinho mofado,
Mas se der para vê-las da janela aberta
Melhor,
Isso fará toda a diferença,
Pois o que os olhos veem a alma sente
E acaba que não se ressente mais...
Vira vaga-lume e sai voando
E acaba esquecendo o abandono.
Dá até para tirar o vestido velho
Cheirando a guardado
E ir para a rua festejar
A descoberta
De que mal de amor
Se cura logo, logo
Com mar ou sem mar,
À luz do luar, que na verdade tem em todo lugar,
E ao som de uma música boa
Para se dançar sob as estrelas
Com carmim na boca e
Muita, muita vontade de vontade de voar...

MARCAS

     Todos os calendários comprovam...Hoje é o primeiro dia do novo ano: 2011...
     Quero começar então trazendo à memória tudo aquilo que me traz esperança, fé, orgulho, admiração e vontade de viver plenamente...
     Uma vez eu disse às minhas amigas que sou digna de ser estudada pela ciência, tenho um mecanismo cerebral que deleta completamente da minha lembrança tudo aquilo que não me fez bem, em compensação, os momentos mágicos e gloriosos eu não esqueço jamais...kkkkkkkkkkk E acho que porque acredito nisso, vivo assim, ou fiz disso minha opção de vida...
     Duas pessoas marcam a minha vida de uma maneira muito especial... As minhas avós.
     Uma, a vó Andrelina, já não está mais entre nós, mas é tão forte o seu legado que nada no mundo nos faria esquecer ou não viver o seu exemplo de vida.
     A outra, Vó Jajá. Liiiiiiiiiiiinda!!!!!!!!! Está aqui, como uma criança que procura colo, para nos mostrar a essência da grandiosidade e fragilidade do ser humano... A dialética da vida.
    A elas, hoje e sempre, o meu muito obrigada, por serem exemplos na minha caminhada e amor eterno no meu coração.

    BIVÓ
 Carla Stopa

A hora não é de tristeza,
É de alegria...
Não é todo mundo que vai
e deixa tanto!!!
Ficou tanto!!!
A infância embalada com leite caramelizado e um carinho incomparável...
Os mil conselhos nas horas certas pra ouvidos incertos...
O exemplo de quem nunca desistiu da vida.
O rostinho manso e lindo e forte.
A preocupação com todo mundo...
Aquele jeitinho de arroz-doce...
E o cheirinho de mulher que usava batonzinho e pó de arroz
e não deixava de viver nunca.
Ela deixou uma herança que o tempo não corrói
E ninguém pode roubar...
Ela está inteiramente viva dentro de nós...
Que sejamos dignos do seu exemplo e do seu legado.
Nossa eterna vozinha...

TEMPO
À MINHA AVOZINHA
Carla Stopa

Teu rosto enrugado pelo tempo.
Quanto tempo!
Onde estão a experiência,
 e a sabedoria adquiridas?
Não é isso que os teus olhos revelam.
No teu sorriso, brilho de criança indefesa
procurando colo de pai.
As lembranças também
  deixaram poucos vestígios de existência.
Ah tempo!
És provocação e reflexão.
És dor diante da impotência do ser.
És a dialética da vida
que nos arrasta a todos pelos seus caminhos.
Qual a tua sentença?
Nos roubará também a vida
antes que nos leve as lembranças,
Antes que leve nossa memória e nossa história?
Nos tornará talvez andarilhos errantes de nós mesmos
e de todos os nossos?
Ah tempo!
Quisera eu ainda acertar as contas contigo.
És o algoz da vida e da morte.
És a vida que se vai
e a vida que se vive...
Ah tempo!
O que tem preparado para nós
a tua crueldade?
Vida?
Morte?
Esquecimento?
Só um pedido tempo:
Não leve de nós o AMOR, que ela
brilhantemente nos ensinou...
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