sábado, 5 de fevereiro de 2011

TEMPO BREVE

O tempo é breve...
Mais breve é o tempo cúmplice
Do encontro do olhar.
Mais breve o tempo breve
Que vai crescendo
No tempo do nosso beijar,
No encontro dos corpos indomáveis,
Na ânsia do não findar.
Nem sei se faz sentido
Ou se pode explicar
Essa desordem do tempo breve
E da eternidade de  amar.
Achados e perdidos.
Alma prolongada de desejos,
De infinitudes e incompletudes
Ansiosas e efêmeras.
A dual delícia
Da busca pelo sempre
Que é nada
Perto da vontade de tudo.
Prolongo-me então em sentir apenas,
Sem mediocridades a rondar,
Só a beleza insuportável e indescritível,
A esplêndida sensação contínua,
Da brevidade que se repete
Eternamente no desejo
De começar de novo o bom da vida.
Se breve for então,
Que seja instante por instante,
Na eterna encantação de amar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

CONTENTEZA


Belo dia
a meninazinha apareceu...
Não fez charme, não fez drama,
foi devagar tecendo sua trama.
Foi charme atrevido
bem tramado e enredado,
e sem se fazer de rogado
foi ficando embaraçado.
Foi chamego caprichado,
o beijo pra lá de adoçado
o abraço bem apertado
e o amor bem caprichado.
Era improviso no olhar,
no toque de arrepiar,
nas palavras cochichadas
nos ouvidos bem pegadas...
E de espantos a encantos
essa menina encantada
com sua vozinha de mar
sempre sussurrava devagar:
"Menino, menino,
minha contenteza é o teu olhar...
De dengo desmanchando
juntou olhar, falar e tocar
e bem depressa respondeu:
"Vem, me dá logo o teu contente, menina,
que eu também te dou o meu..."

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

MÁGICA DE MIM

Tirei cores do meu sorriso
como um pahaço que se despede,
pintei minhas palavras
de um vermelho que não se mede,
fiz sorrir a plateia
como ávida criança ,
depois mudei de ideia
e chorei lembrança e esperança...
Mágica de mim,
rodopiei tirando luas da cartola,
tocando velhas músicas na vitrola,
oferecendo balas e mariolas...
Como trapezista atrapalhado
andando na corda bamba desafinado,
inventei o meu reinado
e as notas dessa ciranda,
num ritual inacabado...
Finda-se o espetáculo...
A cortina desce...
As luzes se apagam...
E eu volto nos amanhãs,
trazendo  da minha viola
sonhos e mais sonhos
das minhas mais insinuantes
e mágicas manhãs...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

UNS E OUTROS


Uns e outros estão aí
A espreitar por detrás das portas.
Uns e outros estão aí
A torcer narizes,
E a espalhar venenos,
E a apontar os dedos,
E a falar baixinho da vida alheia,
E a se contorcer de inveja.
Seres paridos,
Trazidos e criados
Por mim.
Dentro de casa.
Dentro do peito.
Abraçam-me com braços de covardia,
Amarelados da não-vida,
Desejantes
Da vida vivida pela vida alheia,
Das conquistas conquistadas
Pela vida alheia.
Uns e outros estão aí,
Mascarados de seda vermelha
E olhos de candura.
Pobres diabos!
Lobos com peles de cordeiro,
Sepulcros caiados,
Podridão!
Uns e outros...
Estão aí a espreitar,
A engendrar perdição.
Mas eu,
Eu quero espalhar-me de não ver,
Evadir-me de não ouvir
Essa soma de contradições contraditas
E arquitetadas.
Quero espalhar-me e soprar-me
Para mais exibir
Meus pedaços plenos de vida.
E sem ressentimento de
Uns e outros
Sonhar encontros
Com uns e outros
Que não espreitem
Da vida
Senão a própria...



sábado, 29 de janeiro de 2011

ONDE ANDARÁ ALEGRIA?

ALEGRIA
é menina de pernas finas
e longas tranças
que rodopia pela vida
em andanças
ensinando a todos a sua dança...
ALEGRIA, ALEGRIA,
menina caprichosa
de pernas finas e formosa
 que de tanto correr por aí
com suas longas tranças,
de laço de fita cor-de-rosa,
Sumiu!
Quem viu?
Onde andará Alegria?
Por aí, voando,
Livre, tal qual borboleta arredia.

Porque ALEGRIA
 é borboleta transparente
que brinca de esconde-esconde
por entre as teias da vida.
Ora aparece, ora desaparece...
...Mas existe.
E é LINDA.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MENINA ALUADA

Ah Maria menina,
menina aluada,
que vive na janela
olhando a lua, fascinada!
Vive alta e CHEIA
avessa a contenções,
sem pudor ou vergonha
inunda-se, suntuosa, de  emoções...
Onde ela anda
é outro céu
e sabe beber o doce
e o amargo fel.
Vez em quando, esvazia-se
 MINGUANTE até chover,
porque sabe de  seu  avesso,
De seu outra vez CRESCER...

Ah menina Maria,
Maria aluada!
Conta pra mim o teu segredo
de magia enluarada,
que te refaz e te acende NOVA,
e me ensina a viver plena
as minhas fases
numa composição eterna,
uma eterna iluminada...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CINDERELA DO AVESSO


Cinderela de verdade do avesso,
Vivendo sonhos fartos e atrevidos
De sapatinhos de cristal
E príncipe encantado,
Com nariz empinado
Jurando que é imortal,
E que todo o encanto
Não termina à meia noite
Como o da história tal.
Lança-se à sorte
Da sua independência ou morte.
Entrega-se à dança
Dos destinos e dos salões.
Já conhece o jazz e o blues
E o bálsamo
Pra fingir não doer o amor.
Esquece até o hábito de sofrer
E tenta outra vez a sorte,
Pois o seu príncipe encantado
Que virou sapo no dia seguinte,
Mostrava-lhe flores novas
Com cheiros velhos
E velhas cores.
Seus olhos agora
São as meninas dos seus olhos
E vêem da vida o lado bom,
De um paraíso perigoso com flores novas
De cheiros novos.
Suas mãos
Vão construindo e destruindo
Histórias do avesso
De cinderelas desencantadas,
Jurando amor eterno
À luz do luar.
Seu coração,
Esse não desiste jamais.
E pensa sempre no amor,
Que a faz corada e linda,
Uma princesinha de contos de fada
Do avesso.
E dá-lhe relógio, princesinha,
Pois à meia-noite,
Seja ela qual for,
Tudo é igual,
Como na história tal.
Será que é ser muito radical?
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